*144. Tecla de ligar. Atendente eletrônica, voz de lata enferrujada: Olá! Bem vindo a Tim (histérica, quase psicopata). Se quiser comer capim, tecle cavalo; se quiser levar coice, tecle ferradura; se quiser torrar o saco, aperte lança-chamas. Cinco minutos depois, quando aperto a tecla de “idiota” pra ouvir a atendente, a latinha me diz: nóóóoóóóssas posições estão ocupãããããdas, por favor, aguaaaaarde um instaaaaaante. Tu...tu...tu...tu...
Ligo de novo, a lata ressona de novo, ouço a ladainha, aperto “idiota” outra vez, a fanha avisa que as posições tão ocupada e aguardo pacientemente. Surge uma voz: boa tarde, aqui é @&dasflkero 4roiadf *¬qosfnmfeor, com quem eu falo?
Eu: Sean.
Ela: quem?
Eu: Sean.
Ela: não entendi.
Eu: também não entendi teu nome, estamos quites.
Ela (com voz de enfado duplo): em que posso ajudá-lo?
Eu: quero parar de receber mensagens da Tim informando pra apagar a luz na hora mundial e mandar torpedos de graça por R$ 4,99.
Ela: o senhor não quer mais receber torpedos?
Eu: foi o que eu disse.
Ela: qual o teor dos torpedos?
Eu: ou tô enganado ou já te falei: chega de hora mundial e torpedo pago de graça, não quero mais receber 20 mensagens dessas por dia.
Ela: sim senhor, vou registrar.
Eu (acalmando): obrigado.
Tecle, tecle , tecle e ouço os dedinhos dela digitando por alguns minutos.
Ela: obrigado por aguardar. Vou passar o senhor pro setor responsável agora.
Eu: ué, tu não anotou a queixa?
Ela nem se dá ao trabalho de responder. Ouço um som forte e o barulhinho de chamada telefônica. Fico no aguardo. Outra voz surge: olá, meu nome é ew3jo358dsafj ajexdaczzzoirer, com quem estou falando? Em que posso ajudá-lo?
Sim, sim, sim, toda a novela outra vez. Agora com um agravante: a ligação ficou péssima, com eco, dificílima de ouvir.
Ela: diga o número do celular e o código de área.
Eu (aos gritos): 71, Salvador. 9162...
Ela (interrompendo): o celular e o código de área.
Eu: é o que estou fazendo, vc não ouve? Código 71, fone...
Ela: o número senhor, qual o número?
Eu (urrando): 9162...
Ela: e o código?
Eu: tu é surda ou o quê? Me ouve, tá ouvindo? 71...
Ela: Salvador?
Eu: tu conhece alguma outra área 71?
Ela anota, pede um minuto e me deixa no vácuo. Volta: o senhor não registrou seu CPF quando comprou a linha, não acho aqui.
Eu: me diz onde vendem linha sem o registro do CPF que quero comprar umas 15.
Ela: diga pausadamente o número.
Eu digo, ela ouve tudo errado, repito mil veze até que ela pede um momento. Perdi a noção da hora, mas lá vão pedradas e nada. Começo a uivar feito lobisomem, desgraçando até a última geração da biltre, pra ver se ela ouve. Consegui. Uma voz baixinha sussurra: senhor? Senhor? O sistema caiu, preciso de seus dados novamente: telefone e área.
Começamos do zero, os mesmos gritos, as mesmas incompreensões e mais ofensas; só não brigamos pelos CDs e os livros porque não tínhamos nenhum em comum. Até que ela confirma que o cadastro está feito. Quase fico feliz, mas não me permito.
Ela: então, senhor, não somos nós que cuidamos desse problema, é o provedor. O senhor mesmo tem que resolver. Digite a palavra “parar” em caixa alta e mande pro número que está enviando as mensagens.
Eu (inchado feito sapo cururu): tu tá me dizendo que eu esperei todo esse tempo quando poderia ter me dito desde o início que é só mandar uma mensagem? Total absurdo.Quanta incompetência.
Ela: senhor, senhor, em caixa alta, não esqueça. Ou não vai funcionar.
Que meiga, né? Não desistiu de mim, me amparou, me guiou, me acarinhou. Só não convidei pra jantar aqui porque não tô a fim de lavar a louça. Agradeci, com voz de condenado no corredor da morte, e desliguei.
Vinte minutos e 56 segundos haviam passado. Não levei dez segundos pra digitar “PARAR” e enviar.